O artigo a seguir contém excertos de uma palestra apresentada no Sesc Bauru – SP, em dezembro de 2008, acrescidos de trechos extraídos de A Totalidade pelo Horror – o  mito na obra de Howard Phillips Lovecraft (Fapesp/Annablume, 2010)

[av_dropcap1]H[/av_dropcap1]á tempos, qualquer texto não-acadêmico sobre Howard Phillips Lovecraft, seja qual for o meio de comunicação empregado, propaga, ao estágio de tornar dogma entre neófitos, leigos deslumbrados com as criaturas e imagens que ele engendrou, jornalistas apressados despreocupados de verificar informações, blogueiros, etc, as expressões “os mitos de Cthulhu”, “mitologia dos Grandes Antigos”, “Lovecraft criou uma mitologia própria’, etc. Pois bem, este pequeno artigo pretende ir um pouco além e mais fundo nestas definições, muito utilizadas e pouquíssimo explicadas, e oferecer uma compreensão maior da mitologia que o cavalheiro de Providence criou e em que categoria esse mito se enquadraria. Em artigo posterior, apresentarei função dessa mitologia na obra e seus possíveis significados estéticos e ideológicos.

Afirma-se que o centro da obra de Lovecraft, o elemento irradiador a partir do qual toda ela se organiza é um mito conhecido já há décadas como “Ciclo de Cthulhu” ou “Mitos de Cthulhu” – afirmação bastante contestável, daí sofreu ataques corrosivos e justos, por ter sido proposta e defendida por outros que não o próprio autor, por muita da vez ser baseada em ordenações arbitrárias e até mesmo frágeis e superadas, como a forma maniqueísta que Augusth Delerth perpetrou e ainda circula. E que espécie de mito seria esse suposto centro da obra? Um mito cosmogônico, que releva os segredos mais antigos e permanentes do planeta e a real condição da espécie humana na face do universo. E o que seria um mito cosmogônico?

O termo cosmogônico nomeia as narrativas que contam a origem mais recuada de um cosmo organizado, relata uma massa amorfa se transformar em forças, entidades e planos distintos e separados e sua evolução, até um momento específico, momento em que os indivíduos que partilham a cultura da qual esse mito é parte reconhecem como ideal, isto é, que permite a vida humana em seu estado “natural”; cosmogônico é uma palavra grega de origem, que também pode designar um ramo da astronomia. Em ambos os casos, carrega o sentido de tratar do começo de todos os seres e da ordem do universo e de estabelecer um limite intransponível para o conhecimento e entendimento humanos sobre esse princípio. As características mais notáveis do mito cosmogônico são as seguintes:

  1. É o mais potente mito, ele estabelece a ordem última do cosmo que construiu e constrói continuamente ao ser recontado/ reencenado. Trata-se do mito mais importante, que fundamenta todos os outros. Os demais mitos de uma cultura ou um ciclo de relatos só existem porque o mundo que descrevem e explicam passou por um ato de criação. Dessa forma, quando recontado/reencenado, isto é, quando o momento supremo do universo – seu surgimento – é trazido, em todo seu esplendor e poder, ao momento presente da representação, todos os demais mitos e seres dobram-se de modo inconteste ao mito fundante de todas as coisas, exatamente como ocorre nos trechos do “Ciclo de Cthulhu” nos quais a ordem cósmica à qual a Terra está sujeita e o minúsculo lugar da espécie humana nessa ordem são revelados aos impotentes protagonistas e estes são obliterados pelo horror da revelação;
  2. A explicação sobre a origem do cosmo não é completa, total. Uma certa vagueza é pressuposta a essa narrativa mítica. A origem última do cosmo e da vida é um segredo inacessível: o mito revela a origem do cosmo, mas não o processo em si, o segredo final dessa origem, ele não mergulha até a profundidade em que as partículas elementares fervilhavam antes de se organizarem em planos e seres individualizados; certamente revela o mundo, mas a revelação carrega um mistério final que não se deixa desvendar. No mundo que o mito organiza o sentido último das criaturas e forças não-humanas que o governam não deve ser conhecido, pois o próprio mundo deve ser vivido como mistério. E a linguagem em que o mito é narrado/revelado nomeia e conta, mas também oculta. Se o mito cosmogônico é o mito por excelência, a relação entre opostos que dialeticamente formam um todo lhe é central. Ou o mundo surgiu de uma separação espontânea entre os elementos, ocorrida no interior do caos primordial, como os mitos gregos arcaicos, as cosmogonias mesopotâmicas, o Kojiki japonês e tantos outros contam, ou a divindade criadora emergiu, por um processo de todo misterioso, desse caos, contemplou-o e decidiu construir a ordem cósmica.
  3. Sua concisão, sua brevidade. O relato cosmogônico em si é uma narrativa bastante breve, que não se perde em detalhes descritivos ou filigranas poéticas complicadas. Afirma-se que a base mítico-artificial do ciclo de Cthulhu, a matéria-prima a partir da qual Lovecraft forjou sua mitologia, seria um amálgama do sumo narrativo de mitos sumérios, egípcios, árabes e gregos, sendo que a fonte principal dos últimos foi o poema épico que estabeleceu a genealogia das divindades gregas: a Teogonia de Hesíodo, datada do século VIII a.C. O trecho dessa obra que narra a formação do mundo físico, “Os deuses primordiais”, é um exemplo lapidar dessa concisão: em pouco menos de quarenta versos, conta como o Caos, a Noite, a Terra, o Tártaro e o Oceano surgiram um do outro, quais suas funções e quais seus descendentes diretos, dos quais por sua vez as divindades olimpianas provêm e assim estabelece a cosmologia grega com tal clareza e elegância que até os dias atuais é a fonte básica sobre o tema.

A forma como esse segredo central apresenta-se nos contos é curiosa, pois não é sob uma narrativa única e concisa. Como nas narrativas míticas “clássicas”, o segredo sobre o passado da Terra e o estatuto da humanidade é revelado em momentos fulcrais, estabelecendo uma verdade ou situação suprema, mas diferente delas, não aparece como uma narrativa una, citada ou inserida em qualquer um dos contos; suas partes estão dispersas pelo ciclo, apresentadas em três contos-chave, em cada um deles certo elemento importante é revelado, compondo, reunidos aos demais, a ordem cósmica completa; quanto às demais narrativas de Lovecraft, em relação a esse mito, podem ser assim classificadas: em outros contos comparecem elementos de importância marginal e um terceiro grupo possui importância ainda mais periférica, apenas habitando essa ordem cósmica, sem contribuir de modo significativo a sua constituição.

O ciclo de Cthulhu, em parte, é assim conhecido devido a seu primeiro conto central a ser publicado, e no qual seu primeiro segredo importante é revelado: O Chamado de Cthulhu (The Call of Cthulhu, 1926, primeira publicação em 1928), um conto de pouco menos de quarenta páginas narrado em primeira pessoa por um narrador febril, desesperado, que comete excessos estilísticos e retóricos no afã de alertar a humanidade sobre o horror que descobriu. O cerne do conto é a revelação da existência dos Grandes Antigos, por meio da detalhada descrição de provas documentais que revelam um culto secreto, tão antigo quanto a própria humanidade, que realiza sacrifícios rituais de extrema crueldade e se esconde em locais remotos, culto devoto de Cthulhu, entidade pavorosa que habitava a Terra já há bilhões de anos quando a humanidade surgiu e que estabeleceu um vínculo com os primeiros homens, de forma que o culto viesse a surgir, manter-se e preparar seu retorno triunfal eras afora.

O segundo elemento importante surge em Nas Montanhas da Loucura (At the Mountains of Madness, 1931, primeira publicação em 1936), uma de suas mais longas narrativas, um conto gigante de mais de 130 páginas. Neste, há novamente um narrador em primeira pessoa, que não expõe uma descoberta terrível a partir das pesquisas de outrem: o texto é o relato de uma aventura vivida por ele mesmo, um geólogo integrante de uma ambiciosa expedição científica ao coração da Antártida, que narra a descoberta de corpos preservados pelo gelo de uma espécie de criatura inteligente desconhecida pelos homens e em seguida de uma metrópole aparentemente morta erguida por esses seres, uma fabulosa civilização pré-humana anterior aos dinossauros. Os eruditos e muito capacitados cientistas do grupo logo descobrem, ao investigarem os registros deixados por aqueles seres, que são os lendários “Antigos” citados nos tomos mais terríveis e estranhos conhecidos pelos ocultistas, os criadores de toda a vida pluricelular da Terra, por eles engendrada com fins totalmente utilitários; assim, o segredo revelado em Nas montanhas da loucura destroça por completo a imagem que a humanidade faz de si mesma, reduzindo-a a uma criatura recém-chegada ao cosmo e criada não por uma divindade benévola, mas por extraterrestres necessitados de bestas de carga e provisões.

Por fim, A Sombra Fora do Tempo (The Shadow Out of Time, escrito em 1935, primeira publicação em 1936) adiciona a derradeira verdade terrível, ao revelar a infinidade de seres e civilizações que precederam a espécie humana e lhe sucederão, e que a mais poderosa dessas espécies estabeleceu um espantoso meio de contato entre as diversas épocas e respectivas inteligências do mundo, para seus próprios fins egoístas e assustadores. Dois itens desse conto o situam na mitologia do ciclo: a presença de membros dos “Antigos” entre os cativos mantidos pela espécie que domina A Sombra…e as referências, tanto nesse conto como em Nas Montanhas da Loucura, e em O Chamado de Cthulhu, ao Necronomicon.

Lidos em conjunto e relacionando os segredos arrepiantes que cada um revela, revela-se o mito fundante da ordem cósmica do ciclo: o homem é uma criatura desprezível e passageira na história do planeta, não é a única, tampouco a primeira ou última inteligência a habitar a Terra; suas capacidades, seu conhecimento sobre si mesmo e seu mundo natal são de uma pequenez e presunção ridículas; ele e as demais formas de vida da Terra foram criados com fins pragmáticos por seres monstruosos e as entidades míticas que intervêm em sua existência o fazem movidas por propósitos tão medonhos que os homens são incapazes de descrevê-los ou nomeá-los, pois nesse universo, a humanidade é apenas uma arma casual perdida no meio de um campo de batalha cósmico, no qual é revelada, aos protagonistas amaldiçoados dos três contos – “herói”, sem uma nesga de dúvida, é um termo que não cabe a eles –  uma ordem universal não perdida, mas desconhecida da maioria dos homens, que não é confortadora ou simples expressão de uma nostalgia para com um mundo pré-urbano e anterior à sociedade de massas, de todo oposto à brutalidade do mundo industrial-técnico, nostalgia que  Lovecraft cultuou com extremo fervor por toda sua vida, mas sim expressão de absoluto horror para com a falência de qualquer forma de compreender e representar o universo em um todo coerente e benigno às presunções e orgulhos humanos. Portanto, o mito cosmogônico do ciclo expressa incompreensão e horror, não propõe soluções escapistas ou nostálgicas.


Sobre o Autor

Caio Alexandre Bezarias está envolvido com a literatura fantástica desde o fim da década de 80: leitor voraz do gênero desde a infância, suas primeiras incursões como autor de textos sobre ficção científica, terror, histórias em quadrinhos e fantasia ocorreram em fanzines de cultura pop, para os quais escreveu artigos, mais tarde, publicou resenhas e matérias em sites e revistas profissionais; traduziu hqs para a editora Metal Pesado na segunda metade da década de 90; publicou contos de fantasia e ficção científica, entre outros, na revista eletrônica Juvenatrix e um número da edição nacional da série de space opera Perry Rhodan. Professor de língua portuguesa há quase duas décadas, seu mestrado em estudos linguísticos e literários em inglês, defendido em 2006 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, gerou A Totalidade pelo Horror: O Mito na Obra de Howard Phillips Lovecraft(Annablume/Fapesp, 2010) primeiro estudo sobre o criador do ciclo de Cthulhu escrito e publicado em português; também é autor da recém-publicada novela de fantasia urbana Shimandur – a cidade da chuva (Devir, 2015) e com três amigos mantém um blog de contos fantásticos situados em São Paulo (https://carpenoctemsp.wordpress.com), onde nasceu e vive.

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