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"A Tomb To Die For" por DrFaustusAU

A Tumba

Por fim aconteceu o que eu há muito temia. Meus pais, alarmados com a alteração das maneiras e aparência de seu único filho, começaram a exercer sobre meus movimentos uma amável espionagem a qual ameaçava resultar em desastre. Não contei à ninguém acerca de minhas visitas à tumba, tendo guardado meu propósito secreto com zelo religioso desde a infância; mas agora me via forçado a ter cautela quando penetrava os labirintos da depressão brenhosa, onde eu poderia despistar um possível seguidor. Minha chave para a cripta eu a mantinha pendurada num cordão no pescoço, como um segredo que só eu conhecia. Nunca trouxe para fora do sepulcro qualquer das coisas que encontrei por entre aquelas paredes.

Certa manhã quando saí da tumba úmida e prendi as correntes do portal com pouca firmeza, percebi numa macega próxima a face horrorizada de um bisbilhoteiro. Por certo o fim estava próximo; pois meu recanto fora descoberto, e o objetivo de minhas jornadas noturnas fora revelado. O homem não me abordou, de modo que me apressei a chegar em casa a fim de descobrir o que ele reportaria ao meu preocupado pai. Seriam minhas incursões para além do portal trancado reveladas ao mundo? Imagine com que espanto deleitoso ouvi meu espião informar a meu pai, num cauteloso sussurro, que eu tinha passado a noite na clareira em frente à tumba; meus olhos baços de sono fixados na fenda da porta entreaberta trancada por cadeados! Que milagre ocorrera a ponto de iludir assim esse observador? Convenci-me de que um agente sobrenatural me protegera. Na audácia que tal circunstância enviada do céu me dava, passei a ir sem nenhuma dissimulação à cripta; na confiança de que ninguém testemunharia minha entrada. Durante uma semana provei à saciedade as alegrias daquele convívio sepulcral o qual não devo descrever, até que a coisa aconteceu, e me vi arrastado para este maldito lugar de tristeza e melancolia.

Não devia ter me aventurado a sair naquela noite; pois indícios de trovões relampejavam nas nuvens, e uma fosforescência infernal subia do pântano ao fundo do vale. O chamado dos mortos, também, estava diferente. Em vez da tumba na encosta, era o porão chamuscado no topo da elevação no qual o demônio que o presidia me acenava com dedos invisíveis. Quando saí de um matagal intermediário para o plaino diante da ruína, descobri sob o luar nebuloso uma coisa pela qual sempre esperara vagamente. A mansão, destruída havia um século, mais uma vez se erguia no alto como uma visão arrebatadora; todas as janelas a brilhar com o esplendor de muitas velas. Pela longa estrada rodavam as carruagens da elite de Boston, enquanto a pé se aproximava um numeroso ajuntamento de janotas empoados provenientes das mansões vizinhas. Misturei-me a essa multidão, conquanto estivesse certo de pertencer mais ao dos anfitriões que ao dos hóspedes. Para além do saguão havia música, gargalhadas, e vinho em todas as mãos. Reconheci muitas faces; embora eu deveria tê-las melhor reconhecido se não estivessem ressequidas ou carcomidas pela morte e pela decomposição. Em meio a essa turba selvagem e estouvada, eu era o mais selvagem e o mais debochado. Alegres blasfêmias jorravam de meus lábios, e em chocantes gracejos eu desprezava as leis de Deus, do homem, ou da natureza. Súbito, o estrondo de um trovão, muito mais forte que a algazarra do imundo festim, rompeu o telhado e fez baixar um enorme silêncio sobre a companhia turbulenta. Línguas vermelhas de fogo e golfadas de calor ardente envolveram a casa; e os participantes, tomados pelo pavor de uma iminente calamidade que parecia transcender os limites da natureza desgovernada, fugiram aos gritos noite adentro. Somente eu permaneci, preso ao meu assento por um medo humilhante que nunca antes sentira. E então um segundo horror tomou conta de minha alma. Queimado vivo até às cinzas, meu corpo disperso aos quatro ventos, eu nunca poderia jazer no túmulo dos Hydes! Não estava meu caixão já preparado para mim? Não tinha eu o direito de descansar até a eternidade entre os descendentes de Sir Geoffrey Hyde? Ai! eu exigiria minha herança de morte, mesmo que minha alma vagasse através das eras à procura de uma nova habitação corpórea que a representaria sobre aquela laje desocupada na alcova da cripta. Jervas Hyde não deveria jamais compartilhar do triste destino de Palante¹⁰!

Quando a aparição da casa incendiada desapareceu, encontrei-me a gritar e a me contorcer loucamente nos braços de dois homens, um dos quais era o espião que me seguira até a tumba. A chuva caía torrencialmente, e sobre o horizonte na direção sul viam-se os clarões dos relâmpagos que há pouco tinham passado sobre nossas cabeças. Meu pai, a face transtornada de pesar, estava ao lado enquanto eu ordenava aos berros que me colocassem na tumba; avertendo freqüentemente os meus captores para me tratarem com a máxima consideração. Um círculo escuro sobre o piso do porão arruinado sugeria uma carga violenta dos céus; e era nesse local que um grupo de aldeões curiosos estava a examinar com lanternas uma caixa pequena de fabricação antiga, que a explosão do raio trouxera à luz. Cessando minhas contorções fúteis e sem sentido, observei os espectadores enquanto olhavam o pequeno tesouro, e obtive permissão para compartilhar de suas descobertas. A caixa, cujo fecho tinha se partido com o golpe que a desenterrara, continha muitos papéis e objetos de valor, mas eu só tinha olhos para uma coisa. Tratava-se da miniatura em porcelana de um homem jovem usando uma peruca caprichosamente encaracolada, a qual portava as iniciais “J. H.” Quanto à face, sua conformação era tal como se eu estivesse a me olhar no espelho.

No dia seguinte trouxeram-me a este quarto que tem grades nas janelas, mas tenho sido informado sobre certas coisas por um velho servente de mentalidade rude, por quem nutro simpatia desde a infância, o qual tal como eu mesmo, também é amante de cemitérios. O que ousei relatar de minhas experiências na cripta trouxe-me apenas sorrisos de piedade. Meu pai, que me visita com freqüência, assevera que em tempo algum atravessei o portal lacrado pelas correntes, e jura que quando o examinou, o cadeado enferrujado tem estado como sempre esteve ao longo de cinqüenta anos. Ele até mesmo chega a dizer que toda a comunidade sabia de minhas idas ao túmulo, e que eu era muitas vezes vigiado enquanto dormia na clareira da encosta, meus olhos semicerrados fixos na fenda que conduz ao interior. Contra essas afirmações não tenho nenhuma prova tangível, até porque a chave para o cadeado se perdeu na luta durante aquela noite de horrores. As coisas estranhas do passado que aprendi durante aqueles encontros noturnos com os mortos ele as reputa como meros frutos de minha vida pregressa de onívoros estudos em volumes antigos da biblioteca da família. Não fosse pelo meu velho serviçal Hiram, eu hoje estaria convencido de minha loucura.

Mas Hiram, leal até o fim, conservou sua fé em mim e fez aquilo que me impele a trazer a público pelo menos uma parte de minha história. Há uma semana, ele quebrou o cadeado que prende a porta da tumba em sua posição perpetuamente semicerrada, e desceu com uma lanterna até as profundezas sombrias. Sobre uma laje, numa alcova, encontrou um velho mas ainda vazio caixão cuja inscrição deslustrada continha a única palavra “Jervas”. Nesse caixão e nessa cripta é que me prometeram que serei enterrado.


Notas de Tradução

10. Personalidade da Eneida, poema épico latino escrito por Virgílio, onde era um marinheiro e foi colocado para dormir por um Deus, para assim cair do navio e ser sacrificado em nome de Netuno, Deus dos Mares.

Informações Adicionais

Tradução: Renato Suttana
Revisão & Notas: Fernando Ticon

  • Laíse Corrêa

    Tenho esse conto em um livrinho que tenho desse Mestre . Me arrepiei muito. E me apaixonei. Parabéns pela iniciativa e construção do site, mais pessoas precisam conhecer essas obras e essa mente brilhante.

    • Existem diversos ótimos pequenos contos que tento recomendar, assim a pessoa pode se acostumar com o estilo do autor antes de seguir para contos maiores e mais famosos, como o próprio Chamado de Cthulhu ou Nas Montanhas da Loucura. Obrigado pelo comentário, e espero que goste das próximas atualizações : )