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"Ruins" por II Danmrak

Memória

Memória (Memory) é um pequeno conto de ficção escrito por H.P. Lovecraft em 1919 e publicado em maio de 1923 no The National Amateur. Memória utiliza diversas ideias e imagens comuns de H.P. Lovecraft, como relíquias de passados distantes e coisas “que não possuem um nome”. Além disso, seu apreço por vastas ruínas monolíticas é evidenciado pela intrínseca descrição encontrada nessa história de apenas uma página.

No vale de Nis a amaldiçoada lua minguante brilha de forma tênue, rasgando um caminho para a sua luz com frágeis chifres pela folhagem letal de uma grande árvore venenosa. E dentro das profundezas do vale, onde as luzes não alcançam, movem-se formas não dignas de serem contempladas. Grossas eram as camadas de relvas em cada declive, onde perversas vinhas e trepadeiras rastejavam-se no meio de pedras de palácios arruinados, se entrelaçando firmemente sobre colunas quebradas e estranhos monólitos, e erguendo-se sobre pavimentos de mármore colocados por mãos esquecidas. E nas árvores que cresciam gigantescas em pátios em ruínas saltavam pequenos macacos, enquanto para dentro e para fora das profundas criptas de tesouros se contorciam venenosas serpentes e coisas escamosas que não possuíam um nome.

Vastas eram as rochas que dormiam sob cobertores de musgo úmido, e fortes eram as paredes de onde elas caíram. Para toda a eternidade seus construtores a ergueram, e de fato elas ainda servem nobremente, por debaixo delas o sapo cinza faz a sua habitação.

Bem no fundo do vale se encontra o rio Than, cujas águas são viscosas e cheias de ervas daninhas. De fontes escondidas ele surge, e por grutas subterrâneas ele flui, de modo que o Demônio do Vale não sabe por que suas águas são vermelhas, ou por onde elas percorrem.

O Gênio que assombra os raios lunares falou para o Demônio do Vale, dizendo, “Sou velho, e esqueço demais. Fale-me das obras e aspectos e nome daqueles que construíram essas coisas de pedra.” E o Demônio respondeu, “Eu sou a Memória, e sou sábio no conhecimento do passado, mas também sou velho. Esses seres eram como as águas do rio Than, não eram para ser entendidos. Suas obras eu não recordo, pois nada foram além de um momento. Seus aspectos eu recordo vagamente, pois eram parecidos com aqueles pequenos macacos nas árvores. Seu nome eu lembro claramente, pois rimava com aquele que era do rio. Aqueles seres de ontem eram chamados de Homens.¹

Então o Gênio voou de volta para a fina lua crescente, e o Demônio olhou atentamente para os pequenos macacos nas árvores que cresciam no pátio em ruínas.


Nota de Tradução

1. Do original “Man”, onde o nome do rio “Than” rima com a palavra para “Homem” em inglês.

Capa: “Ruins”por IIDamnrak
Texto original em inglês retirado do site: hplovecraft.com
Tradução para português brasileiro: Fernando Ticon